1. O que é uma escala musical?

Uma escala é um conjunto de notas que utilizamos para construir uma melodia. É da escala também que derivam os acordes que formarão o seu campo harmônico, usados normalmente para acompanhar a melodia. Quando analisamos a relação intervalar entre as notas de uma escala obtemos a fórmula dessa escala. Por exemplo, considere a seguir um diagrama com todas as 12 notas geradas pelo sistema no qual a menor divisão é meio tom:

NotasCC# DbDD# EbEFF# GbGG# AbAA# BbBC
Distâncias0,00,51,01,52,02,53,03,54,04,55,05,56,0

Suponhamos que, para compor nossa melodia, escolhemos utilizar apenas as notas naturais: C, D, E, F, G, A, B. Temos então a seguinte relação intervalar:

NotasC D EF G A BC
Distâncias0,0 1,0 2,02,5 3,5 4,5 5,56,0

A fórmula dessa escala é então: 0,0 – 1,0 – 2,0  – 2,5 – 3,5 – 4,5 – 5, 5 – 6,0.

Traduzindo isso na linguagem dos intervalos, temos: T, 2M, 3M, 4J, 5J, 6M, 7M, 8J (desconsideraremos aqui a 8J, já que é a própria T que está repetindo).

Essa fórmula é chamada de escala maior natural. Não significa que, se fizermos uma melodia utilizando essa escala, temos que tocar as notas em sequência. As melodias utilizando essa ou qualquer outra escala utilizam as notas em uma diversidade enorme de combinações. Quer dizer apenas que, se ordenarmos as notas dessa maneira, podemos ter uma noção de qual é a distância entre uma e outra (e é isso o que define a sonoridade particular de cada escala).

Como no nosso exemplo utilizamos a nota dó como tônica, as notas C, D, E, F, G, A, B formam então a escala de dó maior natural. Contudo, uma vez que temos a fórmula da escala maior natural, podemos encontrar qualquer outra escala maior natural: basta estabelecer outra nota como tônica e manter a mesma relação intervalar.

Suponhamos, por exemplo, que queremos descobrir quais são as notas da escala de Ré maior:

NotasD E F#G A B C#D
Distâncias0,0 1,0 2,02,5 3,5 4,5 5,56,0

Outro exemplo com a escala de Mi maior:

NotasE F# G#A B C# D#E
Distâncias0,0 1,0 2,02,5 3,5 4,5 5,56,0

A tônica pode ser qualquer nota, e não apenas notas naturais. Considere os exemplos abaixo:

NotasDb Eb FGb Ab Bb CDb
Distâncias0,0 1,0 2,02,5 3,5 4,5 5,56,0
NotasF# G# A#B C# D# E#F#
Distâncias0,0 1,0 2,02,5 3,5 4,5 5,56,0

Acima foram apresentados exemplos apenas com a escala maior natural. Contudo, como veremos a seguir, existem muitas outras escalas.

2. O que é um modo de escala?

O conceito de modo diz respeito às múltiplas referências que podemos adotar quando utilizamos uma escala. Peguemos como exemplo novamente a escala maior natural. Inicialmente, pegamos como exemplo as notas C, D, E, F, G, A, B, e chegamos na fórmula T, 2M, 3M, 4J, 5J, 6M, 7M. Isso só aconteceu porque, dentre as notas do conjunto que escolhemos, estabelecemos como referência a nota C. Mas, e se tivéssemos utilizado o mesmo conjunto de notas e tivéssemos estabelecido como referência alguma outra nota, a relação intervalar teria sido diferente.

Por exemplo, se ordenarmos a sequência colocando a nota D como sendo a primeira, teremos:

NotasD EF G A BC D
Distâncias0,0 1,01,5 2,5 3,5 4,55,0 6.0

Compare com relação intervalar original:

NotasC D EF G A BC
Distâncias5,0 0,0 1,01,5 2,5 3,5 4,55,0

Como estamos utilizando o mesmo conjunto de notas, estamos utilizando a mesma escala. Contudo, como nossa referência não é a mesma nota que utilizamos como referência anteriormente, dizemos que estamos a utilizar outro modo da mesma escala. Apesar de se tratar da mesma escala, devido a estarmos agora adotando outra nota como ponto de referência, a sua sonoridade será diferente (porque a configuração intervalar é diferente, já que agora nossa referência sonora é outra tônica).

A escala acima, apesar de começar na nota D, não é a escala de D maior natural. A escala de D maior natural contém as notas D, E, F#, G, A, B, C# (porque, como vimos, tem como configuração T, 2M, 3M, 4J, 5J, 6M, 7M). Já a escala acima é a mesma escala de C maior, pois contém as notas D, E, F, G, A, B, C, que são exatamente as mesmas notas de C maior natural, só que aqui estamos a adotar a segunda nota como referência. Dizemos então que estamos no segundo modo da escala maior natural (que no caso é um modo dórico, que é o nome do modo cuja configuração intervalar é T, 2M, 3m, 4J, 5J, 6M, 7m). Se em nossa escala maior natural nossa referência é a própria primeira nota da escala, dizemos que estamos na escala maior natural, mas em seu primeiro modo (que no caso é um modo jônico: T, 2M, 3M, 4J, 5J, 6M, 7M).

Você pode estar a se perguntar como sabemos que o jônico é o primeiro modo, o dórico é o segundo, e assim por diante. Na verdade, isso depende somente de qual configuração intervalar é utilizada como referência para ser o primeiro modo da escala. Por exemplo, o dórico é o segundo modo porque a configuração intervalar do modo jônico é utilizada como referência para ser o primeiro modo da escala maior natural. Mas, suponhamos que tivéssemos outra escala. Imaginemos uma escala fictícia que chamaremos, para efeito de exemplo, de “Doriana”. Imagine que tal escala tem esse nome porque o modo dórico é o seu primeiro modo. Se o modo dórico fosse o primeiro modo da escala, então o modo jônico seria o sétimo, uma vez que começaria na sétima nota da tal “escala Doriana”.

Assim, é importante não confundir: o modo jônico diz sempre respeito à configuração T, 2M, 3M, 4J, 5J, 6M, 7M. Se ele será ou não o primeiro modo, dependerá de qual escala estamos a utilizar (ele é o primeiro em uma escala maior natural). O modo dórico diz respeito à configuração T, 2M, 3m, 4J, 5J, 6M, 7m. Se ele será ou não o segundo modo, dependerá de qual escala usamos (ele é o segundo em uma escala maior natural, mas é, por exemplo, o quarto da escala menor natural). Quando estudarmos a escala menor natural ficará mais clara a possibilidade de esses mesmos modos não serem, respectivamente, o primeiro e o segundo.